“Ter o Pauleta na Bermuda? Nem em sonhos”

Pedro Pauleta esteve de visita à comunidade açoriana na Bermuda, composta maioritariamente por micaelenses ou por descendentes de micaelenses. Era uma das regiões em falta no périplo pelas comunidades açorianas radicadas no estrangeiro.
O antigo internacional português foi em representação da Fundação a que preside com o fito de angariar fundos para a continuidade do funcionamento da Escola Portuguesa da Bermuda sobre a responsabilidade da Associação Cultural que está ligada ao Vasco da Gama de Hamilton.
Nos dois dias que esteve na pequena ilha com cerca de 66 mil habitantes, pôde conviver com muitos dos açorianos que ali residem e labutam. São cerca de 25 mil entre os que foram pioneiros, os descendentes das segunda e terceira gerações e aqueles que por ali estão com contratos temporários de trabalho.
Pauleta teve intervenção directa com os treinadores que orientaram um treino destinado às 94 crianças que compareceram, número que causou enorme surpresa nos elementos da direcção do Vasco da Gama.
Antes de irem para o relvado todas as crianças ficaram a conhecer quem foi Pauleta como jogador. Todas envergaram camisolas brancas com o símbolo da Fundação Pauleta e todas ostentando o 9, o número mítico do actual segundo melhor marcador de sempre da selecção portuguesa.
Brian Dickinson, que vai assumir o comando técnico da equipa sénior de futebol do Vasco da Gama no regresso à competição oficial da Federação da Bermuda, 19 anos depois de a ter interrompido, foi quem montou o campo de treino e que esteve por perto de Pauleta na orientação dos jogos com a miudagem.
Na manhã de domingo Pauleta marcou presença num torneio de futebol de 8 com equipas formadas por elementos não apenas da comunidade portuguesa. Foi uma oportunidade para rever atletas que actuaram em equipas da ilha de São Miguel como Vitor Farol, Nini, Mário Rui, Roberto Medeiros e, surpresa das surpresas, Hélder Arruda. Esse mesmo, o jovem jogador que na época passada alinhou pelo Sporting Ideal no Campeonato de Portugal e que está na Bermuda de visita a familiares.

“Falem português”

No jantar de angariação de fundos que reuniu na sede do Vasco da Gama 170 açorianos, Pedro Pauleta deixou um apelo para os pais que já nasceram na Bermuda e que já constituíram família, não deixarem de falar português com os filhos em casa.
Pode ruir o esforço da Associação Cultural, presidida por Paul Fortuna, do Vasco da Gama, presidido interinamente por Paul Franco, e da professora Verónica Franco, natural da Povoação e há 6 anos a lecionar a língua portuguesa na escola, neste ano com 35 alunos.
“Se não houver a preocupação dos pais em dialogarem português com os filhos futuramente é um língua que deixará de ser falada na ilha”, alertou Pedro Pauleta.
“Os meus filhos nasceram em países diferentes, mas em casa sempre tivemos a preocupação, o cuidado e, acima de tudo, a vontade de com eles falarmos português para não perderem o contacto com uma das línguas mais faladas no Mundo”, dirigiu-se Pauleta à plateia, elogiando o esforço da associação e do clube em manterem a escola a funcionar, mesmo com as dificuldades naturais face aos cortes nos apoios oficiais que têm sido concedidos.
Pauleta elogiou ainda a forma organizada, a união entre todos os elementos e como foi recebido e tratado. Emocionou-se quando recordou a receção que foi alvo no aeroporto, por cerca de 40 crianças e algumas acompanhadas pelas famílias.

“Alcançado o pretendido”

Paul Franco referiu “não sonhar ser possível ter a presença do Pauleta na Bermuda”, aludindo ao êxito das iniciativas que levaram a cabo para terem as receitas suficientes para continuarem com a escola a funcionar.
“O que se pretendia foi alcançado. Termos o Pauleta, haver a aproximação dele às pessoas que o apreciam, não só como jogador, e conseguirmos uma importante receita para a escola”, disse o presidente interino, que rendeu Hugo Miguel Moreira, o anterior presidente que iniciou os contactos para a concretização da visita de Pauleta.
As aulas de português são na sede do Vasco da Gama, situada em local privilegiado na capital Hamilton. Uma sede remodelada e que serve de âncora à grande maioria dos açorianos que vão para a Bermuda. É dali que é organizada a parte profana das festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, além de organizações como as festas de São João, de São Martinho, de Ano Novo, do Carnaval e outras, assim como torneios de futebol.
Outra participação é no Dia da Bermuda, a 24 de Maio. Muitos dos 205 sócios do clube incorporam-se na parada através das marchas ou em carros alegóricos, que têm recebido prémios pela originalidade como são decorados.

Recorde de camisola

Nas muitas acções de solidariedade que Pedro Pauleta tem intervido nos Açores, no Continente e no estrangeiro, é geralmente leiloada uma camisola da selecção de Portugal com o nome do antigo jogador e com o número 9.
Na Bermuda aconteceu em dois eventos. No segundo, na parte final do jantar de angariação de fundos para a Escola Portuguesa, foi arrematada uma camisola.
O despique pela posse foi renhido e emotivo, envolvendo alguns empresários açorianos que já nasceram na ilha.
O valor de 5 100 euros atingido no leilão pela posse da camisola de Pauleta foi o recorde em todas as acções da Fundação.
Michael Maiato, de 33 anos de idade, nascido na Bermuda e com uma grande empresa de jardinagem, sendo os pais de Água de Paul e da Terceira, foi quem contribuiu decisivamente para que a escola possa ter fundos para manter se em funções.
Na véspera, numa reunião mais restrita e com a presença de 20 empresários, a camisola arrematada por José da Silva atingiu 2 500 euros.
Nestas duas acções foram 7 600 euros, que a juntarem-se às outras que decorreram acabaram por resultar no propósito da Associação Cultural, do Vasco da Gama e de Pedro Pauleta.

In “Correio dos Açores” 26/06/2018