Reencontros de Pauleta na Bermuda com Vítor Farol, Toni, Hélder e outros

A extensa colónia de micaelenses a residirem na Bermuda reúne alguns antigos e actuais jogadores de futebol. Uns mais conhecidos do que outros.

Ao longo dos dois dias que Pauleta passou naquela ilha de 53,2 km2 (a ilha de Santa Maria tem 96,82 km2), pôde encontrar-se com cerca de uma dúzia. Aconteceu principalmente no dia  da Pauleta Bermuda Cup, um torneio de futebol de oito com a participação de cinco equipas, a maioria constituída por praticantes da ilha de São Miguel.
Hélder Arruda foi a maior surpresa. Por que ainda joga e porque já foi associado ao Operário depois de ter estado no Sporting Ideal.
O jogador, de 25 anos de idade, aproveitou o longo defeso após o Campeonato de Portugal (22 de Abril) para visitar o irmão que reside na Bermuda. Convivendo com conterrâneos de Água de Pau, foi convidado a integrar uma das equipas do torneio relâmpago, por sinal a que acabou por sair vencedora.
Hélder Arruda está de regresso aos Açores em Julho. Continua indeciso entre ficar na ilha de São Miguel e jogar no Operário e aceitar o convite mais tentador do Angrense, juntando-se ao grupo de micaelenses que já estão comprometidos com o clube de Angra do Heroísmo: Rúben Rodrigues, Pedro Melo e Hugo Tavares (“Besugo”).
A concretizar-se a ida para o Angrense, será o regresso à ilha Terceira, após os dois anos no Praiense.

Farol e Pauleta, a história no F. C. Porto

O reencontro mais emotivo aconteceu entre Pedro Pauleta e Vítor Farol. Há um ano de diferença nas idades. Farol tem 46 anos e Pauleta 45. Foram colegas na equipa da Comunidade Jovem de São Pedro, onde o internacional português começou a caminhada de êxitos. Ambos voltaram a estar juntos nos juvenis e nos júniores do Santa Clara. Curiosamente, em 2010, voltaram a jogar juntos no Desportivo de São Roque. Aconteceu quando Pauleta pretendeu despedir-se do futebol oficial, jogando no clube da terra natal. Farol era defesa central.
Vítor Farol começou nos infantis do Águia dos Arrifes, mas ao passar a residir em São Pedro, em Ponta Delgada, deu seguimento ao percurso futebolísticos nos clubes citadinos.
O reencontro a muitas milhas de distância foi presenciado e aplaudido por elementos que estavam a participar no torneio. Ouviram histórias que ambos tiveram ao longo da carreira. Uma delas fez sorrir todos.
Conta Pauleta que estava nos júniores do Futebol Clube do Porto e, no relvado do antigo estádio das Antas, defrontou o Santa Clara para a fase final do campeonato nacional daquela categoria. Estava-se em 1991.
Pauleta entrou na 2.ª parte e quem o foi marcar foi Vítor Farol. Apesar da amizade, diz Pauleta que foi um duelo duro, ao ponto de o ter irritado. Pauleta ainda marcou 2 golos, num resultado final que se cifrou em 20-0 para os portistas.
Vítor sorria, recordando aquela situação. “Não querias que te facilitasse”, respondeu, dizendo que não foi “maldoso”, mas teve de “por em prática as armas necessárias para evitar que fizesses mais golos e o resultado fosse mais desnivelado”.
Vítor sempre foi um defesa agressivo, mas sem maldade. Ganhou o rótulo de durão.
Aos 46 anos de idade, cumpre mais um contrato de trabalho de 3 anos na Bermuda, por forma a proporcionar aos filhos um futuro melhor. Continua a jogar nos torneios que são realizados na Bermuda. Para trás ficou uma carreira com passagem por 9 clubes: Águia, Comunidade Jovem São Pedro – já extinto -, Santa Clara, Marítimo, Operário, Mira Mar, Santo António Nordestinho, União Micaelense, Santo António e Desportivo de São Roque). Jogou até aos 40 anos de idade e percorreu as divisões regionais e as 2.ª e 3.ª divisões nacionais.
Vítor Farol tem um currículo recheado de títulos e de subidas de divisão. Desde os júniores aos seniores. Aconteceram no Operário, no Mira Mar, no União Micaelense e no Santo António. No escalão júnior foi no Santa Clara.
O momento da despedida foi triste e envolto em lágrimas. A família distante pesa… e de que maneira. Não são fáceis visitas frequentes. As viagens são caras e demoradas. Em Dezembro Vítor conta estar de volta para estar com os familiares. Depois volta às lides até terminar o contrato.
“Ganha-se bem aqui, mas é uma vida dura. Por vezes não há Domingos de descanso. Começa- se pelas 7 horas e acaba-se pelas 7 horas da noite, com temperaturas altas e muita humidade, mais do que nos Açores”, relata o antigo jogador. “A jardinagem é uma das mais fortes actividades e agrupa muitos açorianos”, além de que “o custo de vida é elevado e há de ter muita cabeça e juízo para se poder amealhar algum dinheiro para o futuro”.
Vítor Farol após o torneio ia para casa lavar a roupa e falar com a família. Hoje há a possibilidade de visualizar quem está mais distante graças às particularidades que a tecnologia coloca ao dispor.

A mágoa de Nini

Quem também está na Bermuda há muitos anos é Toni Amaral. Foi jogador do Mira Mar durante várias épocas e alinhou um ano pelo Santa Clara. Integrou a selecção de São Miguel que há 30 anos visitou a Bermuda.
Outro nome conhecido neste reencontro é o de Mário Rui. Está há 18 anos na Bermuda. Reside acompanhado pela esposa, natural de Aveiro, e pelos dois filhos. No atletismo foi atleta e campeão micaelense e açoriano dos 60 metros e nos 60 metros barreiras. Jogou futebol no Mira Mar e no União do Nordeste.
Alinhou na antiga série “E” da 3.ª divisão nacional pelo clube da Povoação. À chegada de Pauleta à Bermuda apresentou uma foto de um jogo em que ambos disputam uma bola. Jogava Pauleta no Operário. Já lá vão 26 anos!
Outro atleta que por lá anda é José Santos, o Nini como é conhecido. Está há 5 anos na Bermuda. Com o encerramento da empresa onde trabalhou 30 anos, teve de encontrar alternativas. Tem 51 anos de idade e trabalha na jardinagem.
Era um defesa central de qualidade. Guarda uma mágoa que fez questão de relatar. “Tive uma promessa de um dirigente do União Micaelense que iria para o Sporting no meu percurso da formação. Ganhei aquela expectativa. Os dias foram passando e nunca mais houve resposta. Fiquei magoado e triste”.
Nini passou a jogar no Desportivo de Vila Franca, mas questões de saúde fizeram-no interromper a carreira ainda novo.
No torneio que participou foi guarda-redes. “É menos desgastante porque durante a semana tenho uma vida dura. Quando comecei a jogar foi à baliza. Mais tarde é que passei para o centro da defesa”, recorda.
A verdade é que teve um desempenho positivo ao ponto de ter sido eleito o melhor guardaredes do torneio. Recebeu o prémio das mãos de Pauleta. “Uma grande honra”, referiu.
Ainda são alguns os jogadores que andam pela Bermuda. Uns há mais tempo, outros há menos. Nesta última situação são os casos do guarda redes Mário Rui, que volta a ser jogador do Praiense na nova temporada, e Hélder Batista, que alinhou pelo Santiago.

 

In “Correio dos Açores” 28/06/2018